"Batalha Atrás de Batalha". Jovens ao leme de uma América em colapso
Filme | Warner Bros. Pictures
O novo filme de Paul Thomas Anderson (PTA), baseado na obra Vineland de Thomas Pynchon, mergulha numa América em guerra consigo, onde os adultos enlouquecem e a esperança repousa nos jovens. Em quase três horas de cinema frenético, somos arrastados por momentos neuróticos, tiroteios, perseguições de carro e explosões, um verdadeiro caos encenado com precisão, sarcasmo e intenção política.
⚠️ Este texto contém spoilers
O repertório de Paul Thomas Anderson (PTA) raramente toca na contemporaneidade. Dos nove filmes apenas três se centram em tempos atuais. “Batalha atrás de batalha” marca, por isso, um momento raro: o diretor norte-americano parece, desta vez, preparado para enfrentar o estado decadente da “terra da liberdade”, com um olhar crítico e, ao mesmo tempo, esperançoso, ainda que essa esperança venha de onde menos se espera.
A história acompanha Bob (Leonardo Dicaprio), um ex-revolucionário nervoso e à deriva. Conhecemo-lo enquanto arrasta um carro cheio de fogo de artifício e granadas de fumo com o objetivo de atacar um campo de detenção de imigrantes na fronteira entre os EUA e o México. Bob faz parte de um grupo revolucionário French 75, que pratica ações radicais para abanar o sistema, como por exemplo ajudar na libertação de presos nesse mesmo campo. A sua companheira, Perfidia (Teyana Taylor), pertence ao mesmo grupo e é uma rebelde armada que adora explodir coisas.
Essa rebeldia acaba por atrair a atenção do coronel Steven Lockjaw (Sean Penn), que faz da eliminação do French 75 a sua missão. Mas a relação entre Lockjaw e Perfidia adensa-se:o que começa com tensão transforma-se numa obsessão, que culmina num abuso sexual.
O grupo revolucionário acaba por se desmembrar. Perfidia desaparece, deixando a filha pequena aos cuidados de Bob. 16 anos depois, essa filha é Willa (Chase Infinity), uma adolescente que, apesar da idade, funciona mais como mãe do que como filha para o instável Bob.
Entretanto, o coronel Lockjaw continua em cena. Agora, tenta infiltrar-se num grupo de supremacistas brancos chamado Christmas Adventures (Aventuras natalícias, em tradução livre), que o obriga a jurar que nunca teve relações interraciais. Com Willa em risco, Bob é forçado a regressar ao seu passado rebelde para protegê-la, reunindo-se com companheiros revolucionários interpretados por Regina Hall e Benicio Del Toro.
Se filmes como Eddington, que estreou no início do ano, retratavam uma América dividida e esgotada, “Batalha atrás de batalha”, é um passo mais ousado: um ataque direto ao sistema, onde os revolucionários são retratados como os “rebeldes fixes” , os militares são homens grisalhos e desesperados por afirmar a masculinidade e os conservadores velhos são caricaturas racistas de camisa engomada.
Apesar de ter a força visual característica de PTA, o filme acaba por tropeçar nas suas próprias intenções. Perfidia, por exemplo, surge como uma figura corajosa, repare-se na cena em que grávida dispara uma espingarda e diz “Bitch, I felt like Tony Montana” (“C****, senti-me como o Tony Montana”, em tradução livre), contudo o seu passado é pouco explorado e a personagem desaparece do enredo ao fim de meia hora.
DiCaprio, por sua vez, transforma-se ao longo do filme: começa como Pat Calhoun, membro revolucionário do French 75, mas nunca chegamos a saber o que o motivou a entrar no movimento e acaba como Bob Ferguson, um pai paranóico e toxicodependente em busca de redenção.
Entre personagens disfuncionais, é Willa quem traz lucidez e equilíbrio. Chase Infinity entrega uma interpretação contida mas poderosa, conseguindo manter a racionalidade mesmo nas situações mais extremas. Nas cenas partilhadas com DiCaprio e Penn, a sua presença dá ao filme a clareza emocional de que tanto precisa.
Destaca-se ainda Benicio Del Toro que, mesmo num papel menor, oferece momentos de leveza e empatia.
“Batalha atrás de batalha” não é um filme fácil. É excessivo, caótico, provocador, e, por vezes, desequilibrado. Mas é também um sinal de que Paul Thomas Anderson está disposto a sair da zona de conforto. Longe dos seus habituais dramas de época, bandas sonoras clássicas e narrativas contidas, aqui arrisca, e assume, sem rodeios, que o tempo está a passar e que talvez a sua geração tenha falhado.
Resta saber se PTA continuará este caminho de confronto direto com a América contemporânea ou se regressará ao seu universo mais familiar. Por agora, fica um filme que grita contra o colapso e encontra nos jovens a sua esperança.
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