"Ângela Diniz: assassinada e condenada"
Minissérie | HBO
“Ângela era linda, livre, louca ou era isso que diziam. E ser tudo isso, nos anos 70, era perigoso.”
Assim começa o primeiro episódio da minissérie brasileira “Ângela Diniz: assassinada e condenada”, realizada por Andrucha Waddington. A produção, lançada em 2025, é inspirada no podcast da Rádio Novelo, Praia dos Ossos, um dos maiores sucessos do true crime brasileiro, que reconstrói o feminicídio de Ângela Diniz às mãos do então namorado, Raul Fernando do Amaral Street, conhecido como Doca Street.
A série acompanha a vida de Ângela Diniz, interpretada por Marjorie Estiano. Nascida numa família abastada, casou cedo e seguiu, durante algum tempo, o percurso considerado “normal” para uma mulher dos anos 60 e 70. Mas cedo percebeu que desejava outra coisa: independência, autonomia e intensidade. Depois do divórcio, muda-se para o Rio de Janeiro, onde se envolve com a elite social e artística da cidade. É nesse ambiente que conhece Doca Street, empresário sedutor, carismático e violento.
O trailer da série deixa clara a escalada da violência. Na contagem decrescente para o Ano Novo, o número 4 corresponde a um murro na porta; o 3, a uma chapada; o 2, a um soco; o 1, ao tiro fatal. Como diz a escritora Tati Bernardi no seu podcast “Desculpa Alguma Coisa”, onde entrevistou a atriz principal, “o trailer conta o que é o feminicídio: o homem que dá o soco na porta, o próximo é na tua cara”. A mensagem é direta: normalizar pequenos atos de violência é o primeiro passo para a tragédia.
Marjorie Estiano acrescenta que Ângela era uma mulher que não aceitava a autoridade masculina e que seguia os seus próprios instintos, algo profundamente transgressor numa sociedade marcada por normas patriarcais. Na série, a relação com a filha ganha particular destaque, um aspeto pouco explorado no podcast e no filme “Ângela” (2023). Segundo a atriz, essa dimensão era essencial para mostrar que a liberdade feminina não anula o papel materno, contrariando estereótipos.
O crime ocorreu a 30 de dezembro de 1976, na casa de praia do casal em Búzios, no Rio de Janeiro. Dois anos depois, em 1979, o caso chegou ao tribunal e transformou-se num dos julgamentos mais mediáticos da história judicial brasileira. No primeiro julgamento, a defesa de Doca Street recorreu ao argumento da “legítima defesa da honra”, tese que viria a marcar profundamente a cultura jurídica e social da época. O veredicto inicial, uma pena branda, gerou indignação pública e desencadeou manifestações por todo o país. Foi neste contexto que nasceu o lema “Quem ama não mata”, que se tornaria um símbolo da luta feminista no Brasil e ajudaria a reverter a decisão em novo julgamento, no qual Doca foi finalmente condenado a uma pena mais pesada.
Numa entrevista à CNN Brasil, Emílio Dantas, que faz o papel de Doca Street revela que o que o fez aceitar o papel do empresário brasileiro foi este ser uma “peça-chave da denúncia contra a violência de género no Brasil”, acrescentando que é uma “forma de gerar debate para que as falhas e os os problemas estejam bem explícitos.”
Esta semana estreou o último episódio da minissérie, que se afirma não apenas como uma obra televisiva de qualidade, mas como um importante documento cultural num momento em que o debate sobre violência doméstica e feminicídio continua urgente.
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